sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

COLIBRI MESTRE

O Entrevistado dessa semana no MEDIOPIRA é o mestre Junei, coordenador da Bateria Colibri de Alvinópolis, um cara que é músico, toca vários instrumentos (e bem), já integrou  banda de reggae, diversos grupos de samba, batuqueiro nato, que foi conquistando seus espaços  até se destacar como mestre de bateria, honraria que pede uma grande capacidade de lidar com o ser humano, equilibrando disciplina e resiliência. Mas vamos a entrevista...

MEDIOPIRA – Junei, como é que surgiu em você esse interesse pela música? Quais foram as suas influências?

Junei - Influência: Família. Na Devoção e na Folia, rs. As lembranças que tenho são do congado com meu pai, bisavó, tios avos, dos ensaios de carnaval, das escolas de samba ensaiando nas praças. Eu sempre ali no meio tentando aprender, tirar som em algum instrumento, ganhar uma fantasia e desfilar. Os encontros de família, sempre os tios, primos, avo, tocavam violão e aquilo me encantava, foi virando paixão. 

MEDIOPIRA – Conte um pouco da sua trajetória. Em quais bandas e baterias participou? 

Junei - Em meados de 1990 meus pais me deram o primeiro violão. Com meu tio aprendi os dois primeiros acordes MI e RE. Logo veio a primeira música - “caminhando e cantando e seguindo a canção...” - estava me sentindo maravilhado com aquilo, a vontade de fazer mais notas, tocar mais musicas. Toda folga era violão debaixo do braço, sentar na porta da rua e esperar um filho de Deus, alguém que soubesse uma nota se quer para ajudar-me. Vários foram os abençoados professores. Tinha uma imensa vontade de participar das aulas de violão do “Tetega”, mas não tinha recursos financeiros para tal. Com o tempo outros membros da família (Juninho, Nei) se interessaram em tocar e igualmente sem recurso financeiro começamos a cooperar um com o outro, fomos pras igrejas, conjuntos de bairro, corais, etc, até que tivemos a oportunidade de conhecer o Sr Rogério Martino – Pai das Bandas Alvinopolenses. 
Ele começou a nos instruir e deu formação a nossa primeira banda Black Swing (Ney: voz e guitarra, Juninho Sevé: guitarra, Junei: Baixo, Toninho: Bateria, Paulinho Cassetete: Percussão). A partir daí tive a oportunidade de fazer parte como baixista de outros grupos como: Transito Livre, Raiz do Samba, GAM, Marquinhos e Junei, Sambaqui, Gilvan e Rhyan, etc. Tentei entender um pouco mais sobre a teoria musical nas corporações musicais Santo Antônio e Mario França. Como amante do samba sempre me dediquei ao aprendizado nas escolas de samba da cidade: Unidos do Morro e Santa Cruz. Fiz parte de outros projetos sociais na cidade e hoje em dia me sinto orgulhoso em fazer parte da Bateria Colibri da Fundação Bio Extratus.

MEDIOPIRA – O que você considera ser fundamental  para um mestre de bateria?
Junei - Não me considero um mestre de bateria, sou no máximo um tira dúvidas, um organizador. Mas considero fundamental Paixão, dedicação, paciência. É muito difícil lidar com pessoas de diferentes facilidades, realidades e entendimentos em um mesmo grupo musical. As vezes é preciso xingar, protestar, apertar para que um grupo com tantas mentes diferentes alcance um mesmo resultado. 

MEDIOPIRA – Além da percussão, quais outros instrumentos domina?
Junei - Não tenho domínio total sobre os instrumentos mas gosto muito de percussão e instrumentos de cordas. (violão, baixo, cavaquinho) 

MEDIOPIRA -  A Fundação Bio Extratus mantém a bateria colibri, uma iniciativa cultural muito importante pra Alvinópolis. Como é que surgiu a ideia de se constituir a bateria? 
Junei - No campo cultural, a Fundação Bio Extratus vem cumprindo com louvor a sua missão de prestar serviço de qualidade, contribuindo assim com o desenvolvimento da cidade de Alvinópolis e região. Iniciou suas atividades com o projeto “Flauta Mágica”, depois veio “Som da Solidariedade”, o belo projeto “Arte Dança” e por fim a “Bateria Colibri”, um sonho antigo da Dona Vera e que hoje enche de sonhos e alegrias a todos os integrantes e envolvidos. 
Alias, gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer e enaltecer o trabalho sócio cultural que a Dona Vera e o Sr Lindouro fazem pela cidade de Alvinópolis e região. 
Pelas alegrias, conhecimentos proporcionados aos integrantes dos projetos da Fundação Bio Extratus. Além de tudo os dois são integrantes, fominhas, da Bateria Colibri. Obrigado. 
MEDIOPIRA – Qual é exatamente o seu papel dentro da Fundação e da Bateria Colibri?
Junei - Sou voluntário na Fundação Bio Extratus. Na Bateria Colibri estou atuando como instrutor de percussão e regente.

MEDIOPIRA – Como é que se dá a formação dos músicos da bateria? Eles tem aulas de música e de manejo dos instrumentos?
Junei - Hoje as aulas da Bateria Colibri são voltadas para pratica em instrumentos. Temos duas horas de aula por dia, 3 dias na semana.

MEDIOPIRA –Como são recrutados os integrantes da Colibri? Tem de ser funcionário da BIO EXTRATUS para participar?
Junei - Não precisa ser funcionário da Bio Extratus para participar. Temos um número de vagas fixo – 60 – que é preenchido de acordo com a necessidade da Bateria, seguindo uma fila de espera e interesse ou habilidade do novo integrante. 

MEDIOPIRA – A fundação Bio Extratus investe também no intercâmbio para agregar conhecimento. Conte um pouco dessa experiência pra gente.
Junei - Já fizemos um intercambio no RJ – quadra do Salgueiro - com os integrantes da Bateria Colibri. Tivemos também a oportunidade de participar de algumas oficinas na cidade de Alvinópolis com mestres de bateria conceituados como Mestre Linguinha - BH, Mestre JR Aruanda – Porto Alegre e o Mestre Marcão da Salgueiro - RJ. Gostaríamos muito de fazer novos contatos.

MEDIOPIRA – Como é a escolha de repertório da COLIBRI. Músicas escolhidas a dedo do grande acervo nacional ou sucessos do momento?
Junei - Realmente as músicas da Bateria são mesmo escolhidas a dedo dentro do grande acervo nacional. Selecionamos de acordo com evento que vamos participar, sempre tentando agradar ao público e também aos integrantes da Bateria – composta por músicos de várias faixas etárias.

MEDIOPIRA –Além do lado artístico musical, a COLIBRI tem também um lado social forte? Comente isso pra gente…
Junei - A Bateria Colibri permanece a unir gerações, com componentes de 08 a mais de 60 anos. A arte traz novas perspectivas técnicas, individuais e de grupo às crianças e adolescentes da comunidade, trabalhando o perigo do ócio, despertando-os para opções que estejam de acordo com a idade e interesse de cada um, seja na cultura, no trabalho ou na vida social.  Torna possível desenvolver o autoconhecimento, a autoestima, a solidariedade, a união, a  força de vontade, a alegria e a sociabilidade. 
A Bateria Colibri é um projeto social da Fundação Bio Extratus que tem como slogan “Semeando o Futuro”. O nome escolhido assim como a logomarca da Bateria fazem simbolizam bem esse trabalho. O apoio ao próximo, o altruísmo a filantropia são sinônimos norteadores desse trabalho.

MEDIOPIRA – E sobre seu jeito de lidar com os mais jovens. Já tive oportunidade de vê-lo em ação. Você é paizão, mas rigoroso. Como é que é isso?

Junei - Sou apaixonado pela música e gosto muito de ensinar. Sou muito, muito, muito rigoroso porque acredito que sem disciplina não tem aprendizado. Mas sou coração mole, rs.

MEDIOPIRA – A bateria Colibri tem se apresentado em diversas cidades. Como tem sido a receptividade do público? Quais foram as apresentações mais marcantes até agora?
Junei - Sentimos levar alegria por onde passamos. Não importa o tamanho do público, mas a emoção daquele momento. Todas as apresentações são marcantes, cada uma tem sua particularidade, a música nos proporciona isso. Momentos únicos.

MEDIOPIRA – A escola de samba unidos do morro saiu no ano passado com muito brilho, homenageando os 100 anos do Alvinopolense e você também foi o mestre de bateria. Qual a emoção de reger a UNIDOS DO MORRO?

Junei - Unidos do Morro foi onde tive a oportunidade de colocar as mãos em meu primeiro instrumento de percussão, vestir a primeira fantasia. Faltam palavras, é inexplicável o momento quando estou ali a frente da Bateria. No ano passado então… Ah… Foi “festa, futebol e paixão” como disse a letra da bela canção – em forma de samba enredo – escrita por você em homenagem aos 100 anos do AFC. Obrigado por eternizar aquele momento Marcos Martino, valeu demais. 

MEDIOPIRA – Quais os projetos para o futuro próximo? 

Junei - A Diretoria da Fundação Bio Extratus sempre se reúne no inicio do ano para tratar do futuro, aguardemos. Só tenho uma certeza… irão mais uma vez fazer o bem.

MEDIOPIRA – Quem quiser uma apresentação da bateria colibri em sua cidade tem de falar com quem? O que tem de fazer?
Junei - A Bateria pode ser contactada através de nosso contato na página do facebook. 
https://pt-br.facebook.com/bateriacolibri

MEDIOPIRA – Deixe seus contatos, face, zap, instagram, etc para que o pessoal possa conhecer o trabalho…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

CLÉBER CAMARGO RODRIGUES, O ITABIRANO SÍNTESE

Cléber Camargo Rodrigues é um itabirano síntese, apaixonado pela palavra, gosta de se misturar aos artistas da música, conhece suas glórias e dores, sempre dialogando com os afins, movendo projetos e mais projetos, ativista, guerrilheiro cultural, sonhador e realizador, colunista, produtor zen, mas inquieto; exigente, mas sedento de novidades. Logo que comuniquei ao editor do Jornal que pretendia entrevistar o Cleber ele já foi citando o "Meninos de Minas",projeto que notabilizou o Cléber como produtor diferenciado, capaz de mover importantes projetos culturais e que ainda consegue manter uma postura otimista perante as mudanças, blindado com uma espécie de couraça poética pra sobreviver com arte. Mas vamos à entrevista...

MEDIOPIRA - Você é poeta, produtor, gestor cultural, escritor. Entre tantos ofícios qual é o dominante?
CLEBER - Acho que ser ajuntador de sonhos é o que caracteriza minha vida, minha sina. Em tudo que faço (ou traço) há uma pontinha de sonhos. Escrever uma poesia ou um projeto é um exercício de sensibilidade que permeia cada um de meus dias. De forma igual, produzir um evento ou gerenciar uma entidade ou projeto carrega a mesma necessidade. Esta sensibilidade vale pra toda atividade humana, mas costuma ser mais explícita no campo da cultura e das artes.
MEDIOPIRA - Como é a convivência entre o artista e o gestor?
CLEBER - A dor e a delícia de criar um texto, riscar um desenho ou fazer uma foto é tão intensa e interessante quanto produzir um evento, um disco, um projeto. É tudo muito parecido. É misturado. Uma mão leva à outra.  
MEDIOPIRA - O que você acha da poesia em tempos virtuais? Acha que a internet banaliza ou depura a partir da quantidade?
CLEBER - A internet democratiza tudo e oportuniza a difusão de uma forma de arte e de agir. Nas redes virtuais, todo mundo pode ser o que quiser e até mesmo ser o que não é. Muita coisa boa aparece e surpreende. Muita coisa de qualidade duvidosa aparece e surpreende também. A possibilidade está diante de todos. Cabe a cada um achar o filtro próprio. Estamos todos a um clique do sonho ou do pesadelo virtual. É uma questão de escolha daquilo que serve ou não pra cada um de nós.

MEDIOPIRA - Você é uma pessoa que construiu uma parte da sua história num mundo ainda analógico. Hoje é tudo digital. Como você trabalha isso? Atualizou-se ou tem dificuldades com esse novo mundo?
CLEBER -Eu tenho uma grande dificuldade com a tecnologia, com a vida digital. Minha filha pequena costuma encurtar alguns caminhos que eu não consigo caminhar sem embolar a cabeça.
Tento aprender bem devagar, com calma pra não estressar.
Pra falar a verdade, eu sou quase uma ‘anta digital’, mas eu ainda não desisti.
MEDIOPIRA - Você foi superintendente da Fundação Carlos Drummond de Andrade. Quais foram seus orgulhos e frustrações dessa época?
CLEBER -A oportunidade é tudo para o ser humano. Eu tive uma oportunidade de ouro. A alegria maior é a certeza que nossa equipe fez o melhor e colheu frutos deste empenho. Conseguimos contribuir pra história de nossa terra. A frustração ficou no passado, como ficam algumas das melhores lições da vida. Foi tudo muito intenso, como deve ser um trabalho na área cultural. As alegrias superaram as frustrações. Demos um passo na caminhada desta vida corrida. Daquele tempo, alguns projetos marcaram a história cultural na nossa cidade. Lembro com carinho da intensa programação do Centenário de Carlos Drummond de Andrade, criação do projeto Drummonzinhos, reconstituição da Fazendo do Pontal, restauração e aquisição da Casa de Drummond, ônibus Biblioteca Drummond Sobre Rodas, Seminário Internacional de Produção Musical, Seminário Cultural do Sudeste (preparatório para o Fórum Cultural Mundial), festivais de inverno, lançamentos de livros e CDs, regulamentação da Lei Drummond de Incentivo à Cultura, Fórum Luso-Brasileiro, entre tantos outros. Passa um filme na gaveta da memória, quando penso na alegria de nossa equipe a cada desafio vencido.
MEDIOPIRA -Vemos a tecnologia assumindo funções antes executadas por seres humanos em todas as áreas. Acha que isso vai chegar ou já chegou as artes?
CLEBER -Já chegou com força, mas tem espaço pras coisas que são feitas à unha, na raça, sem tecnologia. Há diálogos possíveis e necessários, mas há espaço em que uma coisa não condiz com a outra. É preciso achar o que valoriza sem descaracterizar. Sem afrontar a raiz.
MEDIOPIRA -Como você vê a música atualmente? Tem espaço para a qualidade num mundo onde o público comum prefere a monocultura da música sertaneja?
CLEBER -Hoje temos mais qualidade ao nosso alcance. A difusão é que costuma dar a impressão que tudo é nivelado por baixo, mas não é. Eu acredito que ainda vamos conseguir achar o fio da meada e mostrar que a qualidade é maior que “o sucesso” que anda mandando em nossa música de uma forma geral.
Há muita coisa bacana pra gente ver e ouvir. É preciso estar atento nesta travessia.
MEDIOPIRA -A internet para você auxilia ou esmaga os artistas?
CLEBER -A internet é a melhor forma de difusão cultural que temos. A internet só não é melhor que o “boca a boca” que sai do coração, que arrepia a pele e faz você querer falar pra todos que gostou daquele artista, daquela música. Um curtir e compartilhar orgânico é melhor e mais forte, é mais perene do que uma viralização induzida.
MEDIOPIRA -Sobre a cena musical atual, você consegue garimpar coisas boas, no meio de tanta poluição musical?
CLEBER -Todo dia, acho artistas fantásticos. A poluição não alcança meus sentidos. Eu procuro ouvir coisas novas pra reciclar os desejos e a vida.
MEDIOPIRA -Como você vê a cena itabirana da atualidade? E do Médio Piracicaba?
CLEBER -Itabira está lotada de gente com condições de ganhar os palcos do mundo. Há muita qualidade e muitas novidades boas nesta terra Drummondiana.
O Médio Piracicaba também tem uma série de artistas realizando um trabalho com muita competência. Conheço alguns, mas acho que é preciso encurtar a distância que temos de Itabira às outras cidades da região. É uma situação muito parecida com o que acontece entre o Brasil e a América Latina. Somos parte, mas ainda não compartilhamos e somamos da forma que poderíamos.
MEDIOPIRA -Você certa vez sugeriu a baianização da música itabirana, tentando juntar a turma pra criar uma cena poderosa e focada. Deu certo?
CLEBER -Eu acho que é um processo. Nós todos estamos aprendendo e reaprendendo a arte da caminhada coletiva. Estamos no meio do caminho, com algumas pedras à frente, com alguma vontade na mente, com algumas certezas, com uma sorte invisível, mas estamos aprendendo sempre. Com os baianos e com os ipoemenses, precisamos aprender a arte da união e da generosidade em torno de um ideal que seja coletivo. Há muita semente pra plantar. Há mais frutos pra colher do que a gente possa imaginar.
MEDIOPIRA -Na questão da poesia. Acha que continuará a sobreviver no papel ou seu caminho também é a nuvem e o universo virtual?
CLEBER -O livro não acabará nunca. O universo virtual ajudará a popularizar a poesia nossa de cada dia. Um dia, a poesia será mais oral que impressa ou virtual. A poesia ainda será incorporada à cesta básica de necessidades humanas e terá lugar na sala de ser e de amar de todos nós.
MEDIOPIRA - Sobre as leis de incentivo. Não acha que tem burocracia demais para que um artista consiga viabilizar sua arte?
CLEBER -A burocracia não é demais. Precisamos formar mais produtores, gestores e administradores culturais para dar vazão a tanta arte carente de espaço e difusão. Alguns artistas precisam de produtores. Outros dão conta de fazer a própria produção – por talento ou por necessidade.
MEDIOPIRA - Quais são os seus projetos do momento? Em que está envolvido na atualidade?
CLEBER -Estou produzindo um CD dos Meninos de Minas. Tenho sonhando em dedicar à poesia uma parte maior do meu tempo. É um projeto, é uma parte dos sonhos que carrego no meu embornal da cor de burro fugido.

MEDIOPIRA - Seu trabalho é mais concentrado em Itabira ou atua em outras freguesias também
CLEBER -Ao longo de quase quarenta anos de produção cultural, tenho tentado construir algumas pontes fora de Itabira, em outros países e cidades. Acho que nenhuma cidade, do tamanho ou menor que a nossa, consegue consumir tudo que produz na área cultural. O público consumidor ainda é pequeno. É preciso outros caminhos e mercados pra ampliar os horizontes. Vou tentando achar estas possibilidades pra fortalecer o que fazemos aqui. Quase sempre, a vida é uma tentação, mas há alegrias plurais nesta caminhada.

MEDIOPIRA - Deixe alguns links para o seu trabalho.



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A ARTE E A CULTURA NA ERA DIGITAL

A arte e a cultura, assim como tudo no mundo contemporâneo encontram-se diante de múltiplos desafios. Como se fazer notar num mundo cada vez menos palpável? Como criar valor num mundo cada vez mais pirata? Como inovar artisticamente, num mundo cada vez mais utilitário? 
Se Van Gogh nascesse em tempos digitais provavelmente seria um designer. A publicidade poderia aproveitar muito bem as ambiências, as cores saturadas e celestiais do mestre holandês. Imaginem os cenários que montaria para os vts comerciais, para hollywood, para os clips? Provavelmente não pintaria seus quadros, mas quem se importaria? Talvez fosse mais feliz e menos genial. É claro que existem os românticos que não abrem mão das velhas tintas, pinceis e telas. Mas a cada dia o Digital invade o palpável e o simulacro substitui a realidade, com a vantagem de ser antisséptico, não poluente e com baixíssimo custo. 
A arte utilitária pra combinar com o sofá da sala impera sobre a arte vivenciada, espontânea e visceral, o artesanato sobre a arte original e o cover sobre os autorais. 
A mesma metáfora pode ser replicada em quase todas as artes, quase todas em colapso. O mundo humano vai se reconfigurando sob os nossos pés e sobre as nossas cabeças. As nuvens metafóricas estão lá, pairando sobre nós. Na música, tudo revirado pelo avesso. Há anos não vemos uma música brasileira digna de nota, uma canção daquelas clássicas de Chico e Caetano, Milton e Djavan. Talvez por que a lógica da produção artística foi invertida. Na época dessa turma da MPB as pessoas sentiam seu tempo com suas poderosas antenas poéticas e transformavam esse sentimento em arte. É verdade também que os tempos digitais trouxeram coisas interessantes. Toda a história das música está na tal nuvem descomunal.

Você acessa de Ernesto Nazaré a Thiago Iorc. Da música clássica renascentista aos eletrônicos siderados. Mas parece haver um esvaziamento de conteúdos e de densidade. O som é comprimido em 1/12 quando transformado de wave para mp3. A internet ao mesmo tempo que potencializa, esconde os talentos num ponto anônimo da longuíssima calda. Prevalece a música utilitária, o entretenimento puro e simples, cujos imperativos são beber, beber, beber, transar, trair, pegar( não me surpreenderá se dentro de pouco tempo tenhamos músicas pra defecar, pra urinar, pra tirar bicho de pé).  A geração parece não ter potência para erigir novos clássicos. Enquanto isso os hits de outras épocas ganham sobrevida pois tudo cabe na infinita nuvem.Heróis dos Stones, ACDC, do Pink Floyd, continuam vivos na internet. Os clips continuam tocando como se o tempo não tivesse passado. Os ídolos embalsamados vivos, as bandas museus continuam lotando estádios enquanto cheiram as cinzas dos antepassados.
É o futuro do pretérito(literal). Já os festivais e eventos musicais vem sendo sistematicamente cancelados.É o virtual se sobrepondo ao presencial. A crise chegando ao universo cultural por vias econômicas e preferenciais. O poder público exclui a cultura de seus planos de governo e ninguém se importa. A mídia também vai gradativamente diminuindo seus cadernos de cultura e espaços para a produção artística. Para o entretenimento popularesco sempre tem espaço. Mas só. O público parece ter invertido a lógica do protagonismo. Com as mídias sociais todos se transformaram em astros. O artista tem de ser muito bom pra se destacar...ou muito ruim... e a fama pode durar minutos. A impermanência virou regra.  

E a literatura? Como vai se virar fora do papel? Como o romance vai sobreviver num mundo de 140 caracteres? As pessoas continuam lendo, mas textos curtos, descontinuados em seus notes, tablets e smartphones.
O mundo ficou não linear. Pela nova lógica o epílogo pode vir antes da introdução e a escrita pode ser colaborativa, vitaminada(?), frankstênica.
No processo o direito autoral perde o sentido. Nada é de ninguém e todo mundo acha bacana. Nada mais democrático que compartilhar as obras alheias sem pagar nada por isso. Todos baixam músicas, fotos, filmes, livros, tudo na internet como se fosse a coisa mais normal do mundo. 
O mundo do compartilhamento gratuito é lindo e conveniente. Fodam-se os compositores e outros criativos.
E o teatro? Já havia aquela máxima idiota do Casseta e Planeta “vá ao teatro, mas não me chame”. Confesso ignorar os números da ocupação de salas e da produção teatral. Mas se a televisão já fez estrago, imagino que as mídias digitais devem ajudar a aprofundar o fosso. 
De qualquer maneira, como disse Wir Caetano na última entrevista no MEDIOPIRA, " a arte já respondeu com vigor à muitos tempos duros e acho que continuará a responder como se deve. Sempre é possível surgirem entraves à livre expressão, mas resistência também sempre acontece, com maior ou menor intensidade“. A frase do Wir é um sopro de esperança. Ele tá certo. A arte encontrará um jeito. Mas como em todas as revoluções, cabeças rolarão e comunidades inteiras serão dizimadas. Tratemos de sobreviver e de preparar o terreno quântico para os que estão chegando... 



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

OS MÚLTIPLOS TALENTOS DE WIR CAETANO

Wir Caetano é artista, jornalista, letrista, poeta, esteta, fotógrafo, um homem turbilhão. Conheci o olhar scanner do sujeito quando ainda tocava no República e ia muito a Monlevade. Depois quanto estive em Monlevade a trabalho, também nos encontramos. Ele é minimalista e bravo pra chuchu. Ao mesmo tempo é doce, quase um guru, depositário de conhecimento e dotado de grande intuição artística. Mas vamos à entrevista...

MEDIOPIRA – Seu nome é Wir Caetano mesmo ou é nome artístico?

WIR - Sim, é Wir Caetano mesmo, como o “W” pronunciado como “U”: “Uir”. Existe a palavra “Wir” em alemão, com o significado de “nós”, mas meus pais nem sabiam disso e, em alemão, o “W” pronuncia-se como “V”

MEDIOPIRA – Como é que você se descobriu poeta ?

WIR -Faço poemas desde o início da adolescência e creio que contribuiu para isso o fato de que meu pai gostava muito de romances de cordel. Os contatos com a arte de certos poetas na escola também devem ter contribuído.

MEDIOPIRA – Como você definiria seu estilo de escrita?

WIR -Estilo? Não dá para definir. É produto de meu repertório, que envolve referências de campos diversos, como literatura, música, artes plásticas, cinema, coisas que sempre curti. Importa que procuro me manter sintonizado com a produção contemporânea. A arte está intimamente ligada a seu tempo, a linguagem tem historicidade.

MEDIOPIRA – O que você acha da música como mídia, como espaço para fruição poética?

WIR - Como todos sabemos, a música (popular) é uma manifestação que, principalmente no Brasil, tem uma presença muito forte em nossa sociedade, atualmente menos do que em outros tempos, mas ainda forte. E, assim sendo, diz muito dessa sociedade, de nossa cultura.

MEDIOPIRA – Você já fez um bocado de letras de música. O que você prefere: letrar uma melodia já existente ou dá liberdade para que o músico adapte?

WIR -Sim, faço letras também desde a adolescência. Minha primeira parceria foi ainda no colégio. Eu prefiro letrar melodia, acho que é melhor até para o músico, mas as duas alternativas funcionam. Se você faz a letra antes, é bom quando o parceiro consegue mantê-la do que jeito que você fez, mas, se tiver que mexer, a troca de ideias é bem-vinda.

MEDIOPIRA – Com quem vc já parceirou musicalmente?

WIR -Aqui em Monlevade, fiz várias parcerias com o Tó Vilela muitos anos atrás. Em BH, com Babilak Bah e Banda da Penha, se desconsiderar algumas parcerias dos tempos de faculdade.

MEDIOPIRA – Você já lançou um livro impresso. Acha que os livros tem vida longa ou serão engolidos pela evanescência da internet?


WIR -Na verdade, lancei dois: um de poemas, “Paixões e Atrofias”, em 1982, e outro de prosa de ficção, intitulado “Morte Porca”, de 2002. Acho que o livro terá vida longa, mas pode ser, sim, que outros formatos, como o digital com que já convivemos agora e outros que venham a surgir, se tornem predominantes. A história é assim mesmo, feita de mudanças, e nem sempre para pior.

MEDIOPIRA – Como difundir poesia num ambiente tão fragmentado e difuso?

WIR -Já se difunde de muitas formas, como nas redes sociais, por exemplo, ou em canais como o Youtube, vocalizados. Sem falar nos saraus que têm ganhado corpo em alguns lugares, principalmente em metrópoles.

MEDIOPIRA – O projeto MATOADENTRO é muito bacana, uma incursão pelos arredores que na verdade são o centro, algo inusitado e desconcertante. Acha que em algum momento esse projeto série vai virar um longa? Algo como uma exposição de macros e micro paisagens?  

WIR -Já fizemos exposições fotográficas do Mato Adentro alguns anos atrás, em Monlevade e São Gonçalo do Rio Abaixo. Mas gostaríamos, sim, de voos mais amplos, que, quem sabe? Podem ganhar corpo em algum momento.

MEDIOPIRA – O que você projeta para a arte e cultura em tempos de Trumps e outros bichos?

WIR -A arte já respondeu com vigor à muitos tempos duros, e acho que continuará a responder como se deve. Sempre é possível surgirem entraves à livre expressão, mas resistência também sempre acontece, com maior ou menor intensidade.

MEDIOPIRA – O que você ouve de música hoje? O que tem feito a sua cabeça na literatura? Incursões no que já foi ou no que virá?

WIR -Acompanho muito a música por canais de internet e é também na rede digital que ouço boas rádios, como a Inconfidência, por exemplo. Há coisas em âmbito regional e fora. Gosto de nomes como o Graveola, de BH, e o pessoal que tem sido chamado de “nova vanguarda Paulista” (Rômulo Fróes, Kiko Dinucci e outros), entre muitos outros. Em literatura, também há uma produção muito forte, sintonizada com as demandas contemporâneas, que também acompanho. Não faz sentido escolher entre “o que foi” o e o que 'virá”, até porque a arte realmente de qualidade nunca “foi”, continua sendo, viva, ainda que não para ser apenas repetida.


MEDIOPIRA – Projetos no forno?

WIR -Sim, mas, enquanto estão no forno, precisam de silêncio para ganharem corpo.

MEDIOPIRA – Deixe seus links, face, contatos, etc…

WIR -Textos meus quase não tenho postado em lugar nenhum, até porque escrevo pouco e devagar. Fotos podem ser conferidas no Instagram (como wircaetano) e no blog http://meujardimquintal.wordpress.com. O Google me acha com facilidade.